domingo, 22 de maio de 2011

Devaneio...

Acordada no silêncio costumeiro de sua rebeldia, preparou o seu café e diferentemente do habitual, sentou-se na soleira da porta que dá para o quintal, como se ali uma pedra estivesse, a inércia a sustentá-la... O que talvez fosse o tal lugar distante, onde costuma ir em suas viagens imaginárias... A princípio, o que se poderia pensar ser apenas um banho de sol, recepcionando a matutina, a menina entregue às horas dos porquês, o que ninguém entende e ela da razão se ausenta, seguindo embora... Talvez no jeito próprio de calar a boca dos olhos curiosos, no direito que tem de se fazer compreender, se colocando despersa...
As roupas, penduradas no varal, perderam a cor, secas das horas passadas e por ela, esquecidas... como a sombra, a lhe encobrir arrefecida, envolta pelas nuances, no consumismo do tempo, ela distraída...
Por vezes em alternância, levanta e rabisca algumas letras no caderno postado sobre a mesa e no semblante as surpresas, traduzidas em seus trejeitos faciais, ora um sorriso faceiro entre um instante sério, ora lágrimas doridas, as ditas crises existenciais, a lhes invadir o pensar...
E o que será das tantas momices?... Nem o silêncio lhes adivinham, a assistir seus inúmeros retornos às escritas, das voltas e meias dadas incontáveis, virando páginas de forma aflita por inspirações que os versos não ditam, deixando outros para trás, inacabáveis e sem saída, os que não se sabem quando haverão de serem concluídos...
E ela retorna, pelo mesmo caminho, saindo dos sonhos... atenta aos passarinhos, como a esperá-los num fim de tarde, sonorizando com eles o canto, como se fossem os únicos a acalentar seus melindres... E enquanto lhes ouvem, retoma o caderno, redigindo novos versos, o que se enleva em seus desejos sacrossantos...
Depois, ela se volta em atenção à noite, se recosta no peitoril da janela a observar as estrelas que a despertam, a lhes apontar a lua como a querer dizer que do seu sonhar, nunca desiste e que por mais longo que lhe pareça o tempo, haverá de se dar em eclipse ao passo que na espera, se exibe em sua forma exuberante, feliz e iluminada...
Por fim, com um sorriso de esperança, a menina balbucia a única palavra do dia, quando nada havia pronunciado antes, prostrada que estava embargada no silêncio...
- Esperar... - Fecha a janela e se deita, entregue para um novo dia...


Livinha